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As Praças

No princípio do século XX, em Olhão, o mercado do peixe e os comércios de hortaliças, frutas e legumes eram desoladores.
Funcionava o mercado do peixe num barracão, com telhado de zinco, construído há muitos anos junto da ria, onde já estiveram as sentinas públicas. O comércio de legumes, fruta e hortaliças, por sua vez, fazia-se a céu aberto, à roda da Igreja Matriz.
Aí se alinhavam estendais , cestos cabazes e outras vasilhas rústicas, com os produtos do campo. 
É pois, entre 1912 e 1915 que, frente à principal praia da vila, surge a edificação desse grande orgulho dos olhanenses: os famosos mercados de Olhão. Foram construídos no amplo largo que demarca a Barreta da Banda do Levante. Talvez por ser aí nessa praça, começou a chamar-se praça aos
 mercados. Têm um só telhado de zinco com quatro de águas seguidas de abas horizontalizadas depois de uma vertical periferia envidraçada.
Estava  destinado que, mais tarde, estas características se alindassem no meio de dois bonitos jardins, cujo terreno foi roubado às águas da ria, para nascerem no enfiamento desses mercados gémeos.
As paredes, de tijolos vermelhos,
empilhando-se segundo tracinhos brancos, arredondam-se nos cantos, quebrando, assim, a rectilínea rigidez. Nos
meios escancaram-se portões pretos com metade superior encaracolada entre os caixilhos. Na praça do peixe , ficaram notáveis, entre outras, a «venda» do Francisquinho Calé, onde se juntavam os mestres de pesca, e a barbearia do Caleça, com negócios de amêijoas. Na praça da verdura, tal notabilidade caía
na «venda» do Cabanas, talho do «Hermegildo» e barbearia do Segundo com uma guitarra, em permanência, emborcada num banco. Frente a frente, as fachadas principais das praças interrompem-se por um largo que se espraia ao cais e onde durante tempo se arvorou um espiado mastro esguio. É também lá, já, longe, muito acima da Ilha do Côco, que, no começo da Primavera, linhas de patos bravos traçam o percurso para a zona do Ludo.
Em cada praça, nos arredondamentos dos cantos, elevam-se torreões envidraçados, cilíndricos, de cúpulas metálicas e esféricas - refulgentes ao sol com pára-raios espetados nos vértices, lembrando capacetes de gigantes guerreiros medievais. Estes elementos arquitectónicos anulam, em absoluto, a redução das praças de Olhão a dois vulgares paralelepípedos. Pelo contrário, dão-lhes um aspecto monumental com  insinuação   orientalista.
É um conjunto mágico que, na base da geometria do branco estendal de açoteias, induz, em quem entra a barra, numa vista prodigiosa. Sente-se que como numa entrada de um  porto oriental. Porém , a importância  destas praças, tidas como as melhores do Algarve , não está só na arquitectura e até centro de comércio que são. Constituem também o polo atractivo dos passeios que Olhão dá de dia e mesmo à noite.
Quando de casa , avenida, ou rua do Rosário, se  sai  para distrair, o rumo é o largo das praças, ver ou apanhar o hálito do mar.
É também neste desafogo  do largo que as procissões atingem a máxima solenidade, dando-se a maior paragem aos adoradores. Ai chegados, voltam-se para o mar lançando as benções à frota pesqueira.
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 João Barros  30-01-2005 08:50:03