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É difícil, senão impossível, descrever com exactidão
as origens e o desenvolvimento desta raça nos seus primórdios, dado
que a bibliografia ou todo um vasto conjunto de documentação que
eventualmente pudesse existir, é escassa ou mesmo inexistente, o que
provoca um acerta admiração, dado que, sendo um cão que existe,
supostamente, à várias centenas de anos e que era tão usual no nosso
litoral, não aparece representado na iconografia portuguesa.
Sabe-se porém que, entre os romanos, o cão de água era já
conhecido com o nome de «cão leão», que se devia ao corte do pêlo,
que era já nessa época praticado e que lhe deixava a cabeça em juba.
Um dos únicos trabalhos bibliográficos conhecido era o do Prof.
Doutor Manuel Fernandes Marques, com uma resenha histórica e com o
estalão da raça, e onde se interrogava sobre a sua possível origem
fenícia, deixando no entanto a questão em aberto. Também um
interessante trabalho que surgiu, embora bastantes anos mais tarde,
foi o de Margarida Ribeiro, que se debruçou sobre o Cão d'Água
porque se interessava pelos costumes dos pescadores, sem no entanto,
qualquer preocupações sobre o estalão da raça ou os padrões
cinológicos habituais. Segundo ela, Clifford L. B. Hubbard afirmou
que o Cão d'Água foi levado de Portugal para Espanha, durante a
ocupação política e militar do nosso país. Com o gado que entrava em
Espanha, íam os cães cujo mérito e robustez, imediatamente
reconhcidos, foram postos ao serviço dos diversos navios que
constituíram, em Maio de 1588, a Invencível Armada. Tais cães teriam
sido treinados especialmente, para tarefas de salvamento. Exemplares
desta raça deram à costa depois da destruição daquela armada.
Segundo opinião de Hubbard, o actual
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Tendo ficado portanto esta raça «desempregada» do
seu ofício, não por incompetência mas sim por força do progresso,
ela é empregada num outro tipo de ofício. Dá-se a passagem do barco
do pescador para o ringue das exposições. O Cão d’Água deve este
novo aproveitamento das suas qualidades e mesmo a sua não extinção a
três grandes nomes da história da sua raça, Vasco Bensaúde, Dr.
António Cabral e ao casal Miller. Pelos anos 30 começou Vasco
Bensúde a interessar-se pelo Cão d’Água Português. Na sua Quinta dos
Soeiros, em Benfica, criava já algumas raças de cães e dispunha de
instalações modelares e de vários empregados só para cuidar dos
cães. Propôs-se então a salvar e preservar a raça que na época se
encontrava já em perigo de extinção a breve prazo. No dia 1 de
Maio de 1937 nascia a primeira ninhada de Cão d’Água do Canil
Algarbiorum, da cadela Dina e do célebre campeão de trabalho e
beleza de nome Leão que viria a ser o cão padrão, a partir do qual
foi estabelecido o estalão da raça.
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A história deste cão, o Leão, é deveras curiosa e
está recheada de pormenores pitorescos. O Leão era cão de companhia
e trabalho de um pescador, supõe-se que de Albufeira. Vasco
Bensaúde, que tinha posto os seus pesqueiros e muitos amigos seus na
mira de bons Cães d’Água, terá ouvido falar deste cão pela boca do
Médico-Veterinário Prof. Doutor Manuel Fernandes Marques, seu grande
amigo. Com intenção de observar e adquirir o cão, deslocou-se
propositadamente ao Algarve, onde os seus desígnios encontraram um
inesperado obstáculo, o dono do Leão não o vendia nem trocava por
preço nenhum e declarou que só o vendia no dia em que lhe saísse a
sorte grande. Vasco Bensaúde terá regressado a Lisboa bastante
decepcionado mas certamente não desistiu. Semanas depois recebe um
recado do filho do pescador, tinha saído a lotaria a seu pai e podia
ir buscar o cão. O Leão depressa se adaptou ao seu novo estilo
de vida, apreciava os passeios de carro com o dono, os mimos dos
meninos da casa e deixava-se treinar pelo Fausto, cuja a única
missão inicialmente era a de treinar os cães. Uma vez por outra, a
saudade dos primeiros anos ou o atavismo dos seus maiores o levou a
evadir-se, mas regressou sempre à casa daquele que reconhecera como
dono. Era obediente e dócil, embora temperamental, extremamente
inteligente e afectuoso. Dizem algumas pessoas que o conheceram que
era um cão quase humano a quem só faltava falar. Bem conhecidas e
muito faladas foram as provas de trabalho e destreza que realizou em
Lisboa, nas exposições do Jardim Zoológico, e que tinham lugar no
campo dos hipopótamos perante a admiração e aplauso de um público
numeroso e entusiasta. Sete das primeiras ninhadas de Cão d’Água
Algarborium foram padreadas pelo Leão, e todas as outras feitas a
partir de descendentes dele. Alguns cães vieram ainda do Algarve
como o Nero e a Venêsa mas foram sempre cruzados com descendentes do
Leão pelo que todos os cães Algarbiorum receberam em maior ou menor
grau sangue do cão que serviu de padrão à raça. Até 1955
apareceram registadas no LOP 100 cães com o afixo Algarbiorum, parte
deles já sob tutela de outras pessoas que não a família Bensaúde.
Vasco Bensaúde não teria querido, por princípio, vender cães
enquanto o estalão da raça não estivesse aprovado pelos organismos
competentes, terá aberto no entanto uma ou outra excepção e ofereceu
também cães a variadas pessoas. O Leão morreu durante a guerra e
foi sepultado na Quinta dos Soeiros, debaixo de uma magnólia. Pena
será que não tenha ocorrido nesse momento a ideia ou a ocasião de
taxidermizá-lo, pois seria curioso conservar o cão padrão, que viria
a adquirir tanta importância numa perspectiva histórica.
Com
a data de nascimento de Junho de 1954 aparece registado o primeiro
Cão d’Água que não tinha a sua origem no Canil Algarborium nem era
pertença de Vasco Bensaúde, era o Silves, propriedade de Dr. António
Cabral, que se interessava também por Cães d’Água e se propusera a
seleccionar uma estripe sem ir buscar sangue Algarbiorum. Assim
começava a criação de Cão d’Água no Canil de Alvalade.
Entretanto Vasco Bensaúde desinteressava-se dos Cães de Água ,
conseguira salvar a raça e seleccionar cães excelentes, o triunfo
estava consumado a novidade acabara. Manteve no entanto uns quantos
exemplares no seu canil, em parte talvez por consideração para com o
seu empregado Fausto, que era muito dedicado aos seus cães. Quando
Vasco Bensaúde morreu, a 5 de Agosto de 1967, nenhum dos seus
familiares tinha disponibilidade para se encarregar do Canil.
Por essa época surgira outro nome no cartaz de criadores de
Cão d’Água, o de Conchita Citrón, famosa cavaleira tauromáquica de
origem peruana, naturalizada portuguesa, que na sua Quinta do Índio,
no Feijó, com muito boas instalações possuía já um bom núcleo de
Cães de Água. A família Bensaúde não poderia Ter feito pior
escolha pois foi a Conchita Citrón que entregou o canil que à data
possuía catorze excelentes exemplares, presumo que supostamente com
o intuito de dar continuidade do projecto de Vasco Bensaúde, salvar
e preservar o Cão d’Água Português, sem terem consciência do mal que
esta lhes iria fazer. Em 1968 Deyanne e Herbert Miller,
norte-americanos, interessados no nosso Cão d’Água e dispostos a
preservar a raça, vieram a Portugal para adquirir um casal desta
raça a partir do qual se iniciou a criação de Cão d’Água Português
no Canil Farmion. Os primeiros exemplares provinham do Canil
Al-Gharb, portanto descendentes da linha Algarborium. Este casal,
felizmente, consegui algo de muito rara senão mesmo único, que foi a
aquisição de uma fêmea no Canil Al-Gharb, pois sabe-se que
“inexplicavelmente” este canil só vendia machos. Aproximadamente
sete anos depois, “curiosamente” em 1975, surge um enlace inesperado
e inexplicável, Conchita Citrón faz abater todos os seus cães, pondo
assim termo a um trabalho de selecção e apuramento durante décadas.
Desaparecia assim um óptimo e numeroso núcleo de Cães de Água que
entretanto tinham também desaparecido da costa algarvia e de todo o
litoral português. Devemos portanto agradecer a Conchita Citrón
o título, nada invejável, atribuído ao nosso Cão d’Água nesta década
pelo Guiness Book de raça canina mais rara do mundo. Restavem
apenas duas linhas, a do Canil de Alvalade que já há anos
apresentava excelentes cães e a do Canil Farmion nos Estados Unidos.
O casal Miller entretanto fizera cruzamentos com os cães de
Alvalade, de forma a diminuir a consanguinidade e melhorar cada vez
mais a raça e fundar o Portuguese Water Dog Club of America que
viria a contribuir notavelmente para o fomento da raça.
Felizmente o Cão d’Água pôde contar com pessoas como o Dr.
António Cabral, o casal Miller e tantas outras que desde então a ele
se têm dedicado, com o intuito de preservar e fomentar o
melhoramento e o desenvolvimento da sua excelente raça e que
sobretudo não têm permitido que esta corra os riscos de extinção do
passado.
Em
olhão no parque da ria formosa, poderá encontrar os cães de
água.
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