
As
borboletas são insectos fascinantes. As suas curiosidades biológicas e os padrões
coloridos que parecem saídos de uma paleta divina não deixam ninguém
indiferente.
A origem das borboletas é um pouco obscura, uma vez que o arquivo fóssil é
incipiente, devido à fragilidade dos seus corpos. Paradoxalmente, os poucos fósseis
conhecidos foram encontrados muito bem perseverados e quase intactos, pois as
borboletas ficaram sepultadas em âmbar (resina fóssil) o que permitiu
preservar até aos nossos dias exemplares com aproximadamente 140 milhões de
anos.
É curioso verificar que a coexistência das borboletas com os dinossauros (extintos
há cerca de 60 milhões de anos) foi supostamente uma realidade exclusiva de um
determinado tipo de borboletas – as nocturnas (Heteroceros). Quanto às espécies
diurnas (Ropaloceros), parecem ter evoluído das espécies nocturnas e terão
aparecido há apenas 40 milhões de anos, não tendo por isso voado por entre os
grandes sáurios.

Ao contrário do que acontece com os
humanos e com a maioria dos vertebrados, em que os jovens à nascença são
semelhantes ao adulto, as borboletas desenvolvem-se por metamorfose, que se
caracteriza por 4 fases: ovo, larva, crisálida e adulto. Trata-se de um
processo através do qual um organismo conhecido como lagarta (ou larva),
nascida de um ovo, surge como uma criatura completamente diferente do adulto. As
larvas apenas existem para se alimentarem, acumulando reservas que permitirão
ao adulto concentrar-se quase exclusivamente na reprodução.
As larvas, quando maturas, param de se alimentar e buscam um local
adequado para a transformação em crisálidas. Recorrem à seda que fiam para
produzir os casulos, onde se encerram ou simplesmente usam-na para se fixarem às
plantas. Depois de fixadas, as larvas diminuem os seus movimentos, enquanto no
interior da cutícula, os órgãos se vão transformando em órgãos de adulto.
Esse período pode variar de algumas semanas até vários meses. Findo esse
tempo emerge do casulo uma bela borboleta que nada tem a ver com o organismo que
para lá entrou.
O olfacto está normalmente associado às antenas, situadas próximo dos olhos,
no entanto, podem também detectar odores através de outras partes do corpo.
Nos lepidópteros o comprimento e forma das antenas é extremamente variável
tanto entre diferentes famílias, como entre machos e fêmeas numa mesma espécie.
A armadura bucal dos adultos exibe atrofia das mandíbulas e a transformação
das maxilas num aparelho sugador designado probóscis (ou tromba), através do
qual o insecto suga o néctar das flores e outros líquidos. Em certas espécies
de borboletas o probóscis pode estar completamente reduzido e a abertura oral
fechada. Estas borboletas não se alimentam, retirando a energia de que precisam
exclusivamente das reservas acumuladas durante a fase larvar.
Quanto às dimensões, as borboletas podem ir de 2 milímetros de comprimento até
mais de 20 centímetros. A duração da fase adulta é bastante variável,
podendo viver apenas algumas horas ou vários meses, como é o caso da
Almirante-Vermelho (Vanessa atlanta)
que pode chegar até aos nove meses.
Podem existir entre 200 a 600 escamas por milímetro quadrado de asa. Cada
escama tem uma única cor, sendo a sua coloração responsável pelos padrões e
pelas cores brilhantes que exibem, devida a diferentes tipos de pigmentos e à
micro-estrutura das próprias escamas. Estas aumentam o fenómeno de retracção
da luz, pelo que as cores variam de acordo com o ângulo de incidência dos
raios luminosos.
Uma grande percentagem de borboletas possui ocelos (falsos olhos) nas suas asas,
principalmente as espécies de grande tamanho. Geralmente surgem apenas numa das
faces da asa e apresentam cores brilhantes e chamativas, localizando-se o mais
afastados possível das principais nervuras sustentadoras da asa e dos órgãos
vitais.
Em algumas espécies diurnas estes ocelos localizam-se no final das asas
posteriores como acontece na Cauda-de-andorinha (Papilio machaon) e na Flâmula (Iphiclides podalirius).
Estes falsos olhos caudais, que instintivamente se movem de forma regular,
confundem um eventual predador, que, ao atacar os ocelos, ficará apenas com
pedaços da asa e algumas escamas, enquanto a borboleta conseguirá
eventualmente fugir.
Os ocelos mais exuberantes são os ostentados por algumas borboletas durante o
voo nupcial. Neste caso merecem destaque os da Grande-pavão-nocturno (Satumia pyri), da
Pequeno-pavão-noctumo (Satumia
pavonia), da Antheraea sp. e da Aglia tau.
A teoria explicativa mais aceite para a existência
destes "falsos olhos", tal como de outras marcas e sinais chamativos,
é constituírem um método de enganar, incitando o predador a atacar estes
pontos brilhantes e evidenciados, permitindo ao insecto sair quase ileso destes
ataques. É relativamente habitual observar borboletas com as asas rasgadas, em
virtude dos sucessivos ataques a que sobreviveram com sucesso.
Sejam redondos ou ovais, brilhantes ou opacos, concêntricos ou irregulares ou
em "janela" transparente, a mãe-natureza parece ter criado nas
borboletas zonas de surpreendente beleza, que desafiam os esforços de imaginação
e inspiração dos mais criativos e talentosos artistas, em prol da sobrevivência.

Das 150 mil
espécies conhecidas a nível mundial, voam por terras lusitanas mais de um
milhar. Destas, a grande maioria são borboletas nocturnas, distinguíveis das
suas congéneres diurnas pela forma das asas e do corpo, pelo modo como as
nervuras se distribuem nas asas e pela forma das antenas (geralmente filiformes
nas espécies diurnas e ramificadas nas nocturnas).
Para além das borboletas autóctones, algumas outras espécies chegam com a
Primavera, vindo enriquecer ainda mais o colorido dos nossos campos. Entre as
espécies migradoras que nos visitam, as mais emblemáticas são a
Almirante-vermelho (Vanessa
atalanta), a Antíope (Nymphalis antiopa), a Sofia (Issoria lathonia), a Vanessa (Cynthia. virginiensis) e a Vanessa-dos-cardos (Cynthia cardui).
A Borboleta-de-duas-caudas (Charaxes jasius) com os seus cerca de 8 centímetros
é a maior borboleta diurna que voa no nosso país, ficando mesmo assim muito
aquém da espécie tropical Omithoptera
alexandrae, cujas fêmeas podem atingir 20 centímetros
arrebatando, desse modo, o recorde mundial para a maior borboleta diurna. No
entanto, a maior borboleta existente em Portugal e na Europa é a Grande-pavão-noctumo
(Satumia
pyri),
que pode chegar aos 16 centímetros.
Embora tenhamos vindo a exaltar essencialmente a beleza das borboletas, a sua
importância para o equilíbrio ecológico não pode nem deve ser menosprezada,
pois constituem elementos vitais nas teias alimentares, servindo de alimento a
um sem-número de organismos, para além do seu inestimável contributo para a
polinização. Além disso, algumas espécies existentes em Portugal podem ser
utilizadas como indicadores da qualidade do ambiente, nomeadamente a Flâmula (Iphidides poda-lirius),
a Bichoca (Cossus
cossus) e
a Limenites reducta.
Salvo uma escassa minoria de espécies, que
consegue adaptar-se facilmente às alterações dos ecossistemas, a generalidade
das populações de borboletas tem vindo a diminuir quer em número de indivíduos
quer na extensão das suas áreas de distribuição geográfica. Obviamente que
as mais ameaçadas são aquelas que são monófagas, ou seja, que se alimentam
quase exclusivamente de uma única espécie de planta, estando assim altamente
dependentes da ocorrência e abundância da sua planta companheira.
Entre as causas mais apontadas para o declínio dos lepidópteros encontram-se a
destruição dos habitats, a poluição atmosférica, a utilização desregrada
de pesticidas, as alterações climáticas, a expansão das áreas urbanas e as
capturas excessivas para comercialização (coleccionismo).
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