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O Mouro Encantado

O Mouro Encantado

Há em Olhão uma rua chamada de S. Bartolomeu [actual R. Almirantes Reis].

Passeando por essa rua, há algum tempo, na companhia de um amigo [Joaquim Soares Mascarenhas, um amigo do autor], disse-me este:

— Anda em procura de mouras encantadas e de encantamentos, segundo me acaba de dizer, pois nesta rua mora um sujeito que presenciou um encantamento.

— Como se chama esse sujeito?

— Manuel Caleça Branco. É um homem de setenta anos.

— Posso falar-lhe?

— Vamos vê-lo.

Dirigi-me com o meu amigo a casa do Sr. Manuel Caleça Branco e em breves momentos estava na sua presença, vi um bom velho com a barba branca e de aspecto franco e aberto, como facilmente encontramos nos homens da sua profissão de pescador.

— Venho a sua casa no intuito de saber a verdade de um facto que lhe sucedeu.

— Que facto?

— Um encantamento que o Sr. viu, quando ainda era criança.

— Bem sei, bem sei: tinha eu oito anos.

— Se não se incomoda, pode contá-lo?

— Sim, senhor. Tinha oito para dez anos, andava eu brincando com os rapazes da minha idade ao jogo da bola, quando me apareceu um sujeito desconhecido. Nesta ocasião os meus companheiros de brinquedo tinham já retirado para suas casas. O sujeito perguntou-me: queres brincar comigo? Quero, respondi, apesar do sujeito ser um rapazola muito mais velho do que eu.

Começamos a brincar, mas vi logo que ele não pescava nada do jogo.

— Você não sabe deste jogo, disse-lhe.

— Mas sei outros mais bonitos.

— Quais?

— Põe-te em cima das minhas costas e verás. Eu era animoso e escanchei-me imediatamente nas costas do sujeito. Não imagina: ele não andava, voava. Quando cheguei ao sítio, onde hoje corre a estrada do ramal novo, próximo da Horta do Souzinha, ele parou e abriu-se na sua presença um alçapão por onde descemos a um palácio, que era uma verdadeira maravilha. Nunca vi tanto ouro. Ali me conservei por algum tempo até que lhe pedi que me trouxesse para minha casa.

— Sim, levo-te e tem a certeza de que já te não deixo. Andarei invisível ao teu lado, sentar-me-ei à mesa contigo e contigo me deitarei. Logo que cheguei a casa, contei tudo a meu pai, que me disse tivesse cautela porque o tal sujeito não era coisa boa.

— E esse sujeito não lhe disse quem era?

— Disse-me que era um mouro encantado.

— E não lhe disse de que modo podia ser desencantado.

— Disse-me, mas esqueci-me. Muita gente me tem feito igual pergunta.

— E sabe se ele o acompanhou por muito tempo invisivelmente?

— Por algum tempo. Se minha mãe me punha ao almoço dois peixes um desaparecia imediatamente: era ele que mo papava.

Olhei para o Sr. Branco e disse-lho:

— Parece-me que o Sr. está brincando...

— Juro-lhe que é verdade o que lhe estou contando. Sou um velho e não costumo enxovalhar as minhas barbas brancas com mentiras.

— E essa companhia invisível andou por muito tempo consigo?

— Desapareceu, quando fui à confissão e comunguei pela primeira vez. Foi então que me senti desacompanhado; não quero afirmar que fosse exactamente naquela ocasião.

— E não voltou ao palácio encantado?

— Só se eu fosse tolo. Não tornei lá. Saí da presença do pescador. Na rua disse ao meu amigo, o Sr. Joaquim Soares Mascarenhas:

— O que diz a isto?

— Sempre o tenho ouvido contar aquilo mesmo, e sempre com a maior convicção de que viu o que conta. Não sei dizer-lhe mais nada.

 

D’Athaide Oliveira, Francisco Xavier – As Mouras Encantadas e os encantamentos no Algarve com algumas notas elucidativas – Tavira: Typographia Burocrática, 1898, p. 148-150.