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Lendas de Moncarapacho

Lendas de Moncarapacho

Nesta freguesia não há uma lenda completa: tudo se reduz a referências vagas de mouras, encantadas e encantamentos circunscritos a certos lugares da freguesia.

No começo do serro da Cabeça, ao lado do mar, existe uma cavidade cercada de pedras, uma espécie do pequena sala, que vai comunicar para um grande algueirão, denominado o Abismo. Esta grande caverna, tem diversas câmaras e diferentes ramificações.

Como o próprio nome indica, tem uma enorme profundidade, onde não chega a luz do sol, oferecendo a quem a visita um aspecto medonho e horrível. Se os poetas da Grécia a visitassem, colocariam ali o palácio da morte: aquilo não é apenas uma caverna, é um inferno.

É tradição corrente entre os habitantes dos sítios vizinhos que aquela caverna se comunica subterraneamente com castelo de Tavira, comunicação de que faziam uso os mouros no tempo em que dominavam a província do Algarve.

Junto da caverna têm sido encontrados objectos de uma feição estranha, como machados de pedra polida e outros de origem neolítica, que os habitantes daquela freguesia consideram de origem sarracena. Estes objectos aparecidos uma ou outra vez têm sido atribuídos ao trabalho manual dos mouros que ficaram encantados depois da expulsão da sua raça.

No mesmo serro e não distante desta caverna, há mais duas, cujas denominações são características - Ladroeira Grande e Ladroeira Pequena. Não será talvez difícil procurar a origem destes nomes, sabendo-se que ali se acolheram em 1833 os facínoras que assaltavam os pobres moradores dos sítios próximos, servindo aqueles dois antros de verdadeiras cavernas de Caco. No Algoz, povoação do concelho de Silves, há, no sítio do Guiné, uma semelhante caverna, onde por muitos anos se escondeu um grande criminoso conhecido pelo Diogo do Guiné.

Também a voz vaga afirma que nestas estão encantados alguns mouros, fugidos do castelo de Tavira, quando este foi tomado pelo grande D. Paio; assim como também se diz que estas duas cavernas se comunicam subterraneamente com a grande caverna do Abismo.

Existe entre o nosso algarvio a constante tradição que afirma comunicarem todos os castelos da província entre si subterraneamente; e raro será encontrar algum desses grandes algueirões, cavernas ou furnas, que os habitantes dos próximos sítios não digam que se comunicam com o castelo mais próximo.

Como em quase todas as freguesias do Algarve, onde aparecem tais cavernas, em a freguesia de Moncarapacho há a opinião de que os mouros as habitaram em tempo, e que ainda hoje ali se conservam encantados. Para confirmar essa opinião contam-se diversas histórias de indivíduos que foram surpreendidos de noite por aqueles misteriosos seres. As cavernas são para o nosso povo uma espécie de mapa coreográfico dos sarracenos. Onde encontra uma caverna aí lhe parece ver uma antiga residência mourisca, que ainda hoje conserva como de reféns um triste mouro ou uma formosa moura, mas encantados.

Não muito distante de Moncarapacho existe uma ribeira e nesta um pego denominado o Bum-bum. As lavadeiras do povo costumam ir ali lavar a roupa, escolhendo local apropriado. Há muitos anos foi ali uma lavadeira chamada Maria da Graça. Depois de ter lavado algumas peças de roupa, apareceu-lhe uma criança, vestida de encarnado e com um gorro da mesma cor.

A criança em vez de se aproximar da lavadeira foi sentar-se sobre a roupa já lavada. Indignou-se a pobre mulher com o procedimento do garoto e ameaçou-o; ele, porém, em vez de atender aos conselhos da mulher, começou a cuspir sobre a roupa lavada.

Desesperada do procedimento da criança, saiu à pressa da água e correu sobre ela. A criança, porém, tinha boas pernas, e safou-se com pasmosa agilidade. Chegada a um ponto qualquer desapareceu, sem que a lavadeira percebesse o destino que tomara. Voltou para o pego e foi examinar a roupa, que fora enxovalhada pelo atrevido garoto. Qual não foi o seu espanto, quando, no lugar onde o garoto cuspira, viu dobrões de legítimo ouro! O mourinho encantado recompensara assim os desgostos da mulher.

De outra vez certa mulher, Clara, se bem me lembro do seu nome, passou a um sitio próximo do pego e viu o mesmo mourinho ou outro, que com este se parecia, que a chamava para junto de si. Fazia já escuro, pois que havia tempo que o sol descera no seu ocaso, e a mulher resolveu escapar-se-lhe, pondo-se a correr para a povoação.

Em outras ocasiões em sítios diversos tem sido vista uma gentil moura, vestida de branco.

Nos contos das pessoas idosas figuram muitas mouras encantadas na freguesia de Moncarapacho, mas essas pessoas, receosas da troça moderna, somente os contam ás pessoas da sua intimidade.

No serro de S. Miguel, próximo da mesma povoação, também têm sido vistos mourinhos encantados. Entre tais lendas corre uma relativa ao nome da sede da freguesia. Corre pela tradição que Moncarapacho tirara o seu nome daquele serro, que realmente é assaz alto, mas talhado a pique, e sem um declive. Este serro é conhecido por Monto Escarpado. Diz-se que o primitivo povo ficava junto desse serro e por isso conhecido por Monte Escarpado, que, com o andar dos séculos, se transformou no actual Moncarapacho como uns escrevem, ou Monte Carapacho, como escrevem outros para se não afastar talvez do nome primitivo.

Há outras versões mais modernas, que atribuem aquele nome à circunstância de haver naquele sítio, antes de mais povoado, uma casa, onde habitava uma velha que trabalhava em capachos, que mandava vender. Dizendo-se portanto no princípio Monte dos Capachos. Acho, porém, em extremo corriqueira uma tal origem e creio que só à mania de querer explicar tudo se pode atribuir aquela origem. O muito reverendo prior Simas, falecido há anos, e que tinha boa lição dos livros antigos, adoptava a primeira origem, naturalmente por a ter encontrado em algum livro.

O serro da Cabeça, acima mencionado, tem cinco quilómetros de extensão e quase treze de largura: principia a nascente da povoação no sítio do Monte do Tesouro e acaba a poente no sítio da Jordana. Diz uma lenda, cuja origem remonta muitos séculos atrás, que à pessoa que der treze voltas a este serro, pela meia-noite, aparecerá uma formosa moura que lhe ofertará todas as suas riquezas, guardadas no aludido Monte do Tesouro, em recompensa de a ter desencantado com aquelas voltas.

Escusado será dizer que até hoje ainda ninguém ousou realizar tal empresa pois que o medo de andar de noite em terrenos tão povoados de mouros é superior à recompensa prometida. «Para encontrar riquezas trabalha-se toda a vida; a troco porem de perder a alma, nem um minuto, respondem os habitantes, vizinhos do sítio, aos que os censuram por não empreender o passeio à meia-noite.»

D’Athaide Oliveira, Francisco Xavier – As Mouras Encantadas e os encantamentos no Algarve com algumas notas elucidativas – Tavira: Typographia Burocrática, 1898, p. 151-155.